Professora de corpo e alma

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… Eu penso que lecionar é um dom e uma doação: não se aprende ser professor, já se nasce professor. Sou filha de professora e minhas memórias pairam em momentos como quando eu, ainda pequena, dormia com minha mãe na cama dela e quando ela recém chegava já tarde de suas aulas, deitava-se comigo e, no momento que era para ela descansar, pegava um livro ou algum texto e começava a ler. Eu, vendo aquele exemplo, o que restava era então pegar um dos livros que ela fazia questão de me dar e a acompanhava, ela na sua leitura e eu na minha.
Quando mais moça, era algumas vezes chamada para substituir professores e também, quando possível, auxiliava minha mãe em sala de aula.
Na minha época, quando entrávamos para o segundo grau, onde morava havia a opção de fazer o que era chamado de propedêutico, magistério ou contabilidade. Eu quis fazer dois ao mesmo tempo, mas minha mãe fez todo possível para me desestimular a cursar magistério. Então iniciei os estudos em segundo grau normal e em contabilidade, mas números nunca foram meu forte e, ao mudar de cidade, acabei optando somente pelo normal.
Mas o desejo de passar conhecimento pulsava em minhas veias. Escolhi fazer Direito e me apaixonei pelo curso. Recordo-me que, na primeira semana de aula, um professor fez uma apresentação, levando um palestrante que no futuro tornou-se um político conhecido em nossa região. Assim como me recordo de grandes exemplos de professores que me inspiravam e em minha memória ainda permanecem muitas falas de meus mestres. Lembro até da minha professora do Jardim. Assim fui me encantando cada vez mais pelo curso, que até não era minha primeira opção, mas que os desígnios do destino de certa forma me oportunizaram a fazer.
Deus sabe que o faz…
Quando formada e já com a famosa carteira da OAB, comecei advogar com muita coragem e até ousadia, pois não tinha mais a quem recorrer para tirar minhas dúvidas. Então fui conseguindo as primeiras procedências nos meus processos. Recordo que o meu primeiro caso como advogada fora em uma cidade pequena, um caso complexo de Direito Agrário. Assim minha primeira liminar foi concedida, o que parecia muito difícil de ocorrer naquele caso, então veio a sensação de que eu estava no caminho certo.
Depois disso vieram casos criminais e ambientais – e o que mais me surpreende que. Os casos surgiam exatamente nas áreas em que eu queria ser especialista.
Assim, a remota ideia de concurso, que havia no início do curso, foi deixada pra trás.
Advogar não é um trabalho fácil, requer concentração e atenção aos detalhes, não tem o glamour que muitos pensam, o pior são decepções de nos depararmos com colegas que não possuem respeito pelo próprio trabalho, quanto mais pelo alheio, mas isso é tema para outro momento.
Embora estivesse cada vez mais estimulada pela advocacia, com o tempo senti um vazio, como se não fizesse tudo que poderia fazer. Eu queria fazer mais, não apenas para mim, mas também para outras pessoas. Então decidi lecionar, mas oportunidade para tanto não é tão fácil como imaginam muitos. Iniciei em 2007 minha primeira turma, que após alguns anos tive que interromper quando sobreveio doença em minha mãe que, por ironia, após uma vida lecionando e quando havia se aposentado, adoeceu. Era uma grande guerreira- lecionava em todos os turnos e, por ter vivido diversas situações de ingratidões, perseguições e desinteresse de discentes, não queria que eu enveredasse pelo mesmos caminhos…
Mas eu penso que talvez a distância de sala tenha contribuído para seu adoecimento pois, mesmo ante aos contras da profissão, ela o fazia com todo amor. Como uma balança, o que pesava também para ela era ver seus alunos evoluindo e até hoje tenho certeza que muitos se recordam dela.
Então, após anos acompanhando tratamento de minha mãe e apenas advogando, o vazio permanecia.
Após três meses da despedida dela, o destino me oportunizou o retorno às salas. Ora, não podia ser em melhor momento, pois o fato de ter compromisso de ensinar para os outros futuros profissionais acalentava a ausência da minha maior inspiração. Sempre procurei utilizar atividades diferenciadas e então comecei a tentar estimular o interesse maior dos acadêmicos em simulações de fatos reais do mundo do jurídico. Ver brilho nos olhos dos alunos é uma das melhores sensações.
Sempre fui exigente, brava. Afinal, o mundo real, ainda mais o jurídico, não é nada fácil. Ao logo dessa jornada, encontrei parceiros que tinham mesmo amor, fiz amigos(as) que levarei para sempre em meu coração. Mas também já fui incompreendida e até perseguida, até porque, assim como minha mãe, nunca fui adepta a tratamentos interesseiros por quem não possuo real admiração.
Assim como eu, tenho certeza que cada um que foi tocado pela missão de ensinar tem sua história de luta, de superações e até incertezas, mas que não conseguem se abster desse dom maior que lhe foi concedido. A mim cabe agradecer por receber esse dom e agradecer aos meus mestres.
Parabéns- Professores e Professoras, por ensinar todos os dias.

Michelle Marie – Professora, advogada, Ouvidora Nacional Abracrim e Presidente Abracrim/MT

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